segunda-feira 18 2015

O meu parceiro Grande Otelo

 O meu irmão mais velho, Alexandre Marques, ator e autor teatral, escrevera uma peça infantil, nos idos de 1975/76, de título "Cantando Na Neve" - peça essa a qual eu compusera toda a trilha sonora. Em outra peça infantil de meu irmão Alexandre, "Malvina Sindical", uma das atrizes dessa peça era a atriz Joséphine Hélene, à época esposa do ator e compositor Grande Otelo. Em uma tarde, ao final de uma sessão da peça, a Joséphine apresentou-me ao Otelo, que fora ao Teatro Brigitte Blair, em Copacabana, para se encontrar com ela. Ao saber que eu tocava violão durante a encenação da peça, e que eu também compunha, que já gravara minhas músicas em discos, inclusive com outros artistas renomados, o Otelo me propôs que nos encontrássemos, para que nos conhecêssemos melhor. Marcamos um almoço em minha residência, nessa época no bairro de Santa Tereza, no Rio de janeiro. Nesse tempo eu estava casado com Maria Tereza, que preparou um rápido cardápio, uma vez que estávamos com a casa toda em obra e ainda sem mobília. Eu, Tereza e Otelo, nos acomodamos em almofadas e comemos com os pratos ao colo, enquanto Joséphine se valeu da tábua de passar roupa e uma banqueta improvisada. A Tereza ainda fez questão de cobrir a tábua de passar com uma toalha branca, de renda portuguesa autêntica, que pertencera a mãe Tereza, para que a nossa convidada Josephine, conforme sua exigência, fosse recepcionada com dignidade. Findo o almoço Otelo me pediu que mostrasse algumas de minhas ...
composições. No decorrer da cantoria ele também cantou algumas de suas obras. Lá para as tantas ele entoou uns versos com um princípio de melodia, que diziam: "Nasci ao som de um violão / Pra me embalar tive um Samba Canção / ... Enquanto ele entoava a letra eu acompanhava ao violão e sugeria algumas modificações nos versos e na melodia. Assim foi feita a nossa primeira parceria, com o título "Nasci Ao Som de Um Violão". Parceria de uma pequena série, que se completaria mais tarde com outro Samba, intitulado "Alta Noite":  "Alta noite, um tiro ecoou / Um grito se ouviu / Quem foi que correu / Quem foi que caiu... / Na esquina de uma rua escura / Um bamba viveu a sua última aventura / No dia seguinte, num cantinho de jornal / Uma notícia banal / João Sebastião de Tal / Numa briga levara a pior / Fora morto a tiros por um menor...". Após o nosso primeiro encontro muitos outros se fizeram, até que de repente, por longos quase dez anos, nos afastamos um do outro, sem qualquer motivo explícito. Simplesmente a coisa toda foi esfriando até que não nos falássemos mais e perdêssemos o contato completamente. Passado todo esse tempo, em um dia de sábado, pela manhã, eu morava agora sozinho em um pequenino quitinete, à Rua Correia Dutra, no bairro do Flamengo.  Eu estava a estudar violão, praticando escalas e arpejos, quando soou a campainha de meu telefone. Ao atender eu ouvi a voz inconfundível que me perguntava: 
-"Que qui 'cê tá fazendo agora?
Respondo euforicamente:
- "Ô seu fdp! Onde é que tu anda?"
Recebo a resposta:
-"Vem almoçar comigo uma feijoada, aqui no Hotel (não lembro qual o nome) em Copacabana!" Claro que eu fui a jato! Ao chegar lá encontro o parceiro e mais a ala de compositores da Escola de Samba do Salgueiro, e Otelo patrocinando tudo. Após a feijoada, fomos para a residência ainda do casal, à Rua Siqueira Campos, mas Josephine não estava em casa. Essa minha ida foi porque o Otelo queria que eu organizasse umas gravações dele, de meia dúzia de fitas K7, que estavam quase que inaudíveis, numa mistureba total, um tremendo caos. Uma balbúrdia de sons e chiados. Levei as fitas K7 para casa, com a promessa de dar uma ordem à coisa toda. Nessa ocasião eu preparava um show que eu apresentaria no Bar e Restaurante Botanic, no bairro do Jardim Botânico. Ao comentar sobre esse evento com Otelo, não resisti e indaguei se ele toparia "dar uma canja" no show.  Foi a glória! O Otelo "fez o show"! De outra feita, logo quando nos conhecemos, ele apareceu, sem qualquer aviso, pra me visitar, numa empresa em que eu trabalhava, ali na Rua do Resende. Ele queria saber se eu e Tereza poderíamos acompanhar a ele e Josephine até ao "Cassino Bangu", onde ele seria homenageado juntamente com demais estrela e astros do cinema brasileiro. Marcamos então em sua residência, que era à Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Chegando lá, ficamos a papear enquanto aguardávamos o táxi que ele contratara, que não chegava nunca. Já agoniado com a espera, o Otelo passou a mão ao telefone e contratou o serviço de outra empresa, dessa vez uma prestadora especial, de luxo. Assim atravessamos toda a cidade do Rio de Janeiro e fomos nobremente até ao bairro de Bangu, ao Cassino, onde era servido um lauto jantar. Otelo perguntou ao motorista do táxi se ele poderia nos aguardar até a hora de irmos embora. Após passar um rádio para a central de táxis, ficou confirmada a permanência do chofer, à nossa inteira disposição, mas sem que tivesse de desligar o taxímetro. Otelo convidou o motorista a sentar-se em nossa mesa e jantar conosco. Saímos de lá com o dia já raiando. Não sei quanto foi, mas com certeza uma das corridas mais caras que eu já vi em minha vida. Assim era o Otelo que pude conhecer. Quando em uma das visitas que eu fiz a ele no hospital, após um princípio de enfarte que ele sofrera, mal adentrei ao quarto e ele, deitado, com vários aparelhos e fios sobre o corpo, pediu-me bem baixinho um cigarrinho para fumar escondido no banheiro. Que moleque! Aliás é bem conhecida a história de que ele volta e meia se internava com outros artistas boêmios, em uma clínica famosa do Rio de Janeiro, com o intuito de "se desintoxicarem", mas subornavam enfermeiros e fugiam para a gandaia de madrugada. Daí, retornavam já pela manhã, somente pelo prazer de sacanearem aos médicos. De outra ocasião, eu estava na Rádio Nacional, dando entrevista ao radialista José Messias, quando fomos interrompidos gloriosamente por um telefonema de Otelo. O resultado foi que ele cantou algumas canções pelo telefone, lá de sua residência em Copacabana, enquanto eu o acompanhava ao violão, lá da emissora da Rádio Nacional, na Praça Mauá, no centro da cidade. Essa gravação se encontra aqui em meu blog, nesse link "Programas de Rádio". Otelo era de uma cultura invejável. Dominava fluentemente mais de um idioma. Teve presença marcante nos palcos e nas telas brasileiras. Seus incomparáveis personagens, como no clássico "Macunaíma" e em suas atuações ao lado de Oscarito, não lhe reservaram o merecido destaque, de vulto, de consideração, de importância, de reconhecimento, de glórias e honrarias, mesmo quando em vida, decerto por ser brasileiro, magrelo, baixinho, negro e feioso, mas de tal competência com sua Arte, que talvez, quem sabe, se não sejam esses os motivos para tanto descaso.