sexta-feira 22 2015

Despedida de Pixinguinha...

Em minha postagem anterior eu descrevo o incrível sábado em que conheci, em mesma manhã, Aracy de Almeida, Pixinguinha,  o "buraco quente" lá na Mangueira, Cartola, Dona Zica, Carlos Cachaça, Menininha, Xangô da Mangueira, Padeirinho, e depois a atriz e cantora Marlene. Embora esse tenha sido um dia inesquecível de minha vida, por ter tido o privilégio de estar ao lado dessas pessoas, levado que fui por meu parceiro à época, Hermínio Bello de Carvalho, trágico foi o desfecho de tantos encontros maravilhosos. Eu citei que era um sábado pré carnavalesco com a Banda de Ipanema. Pois bem! Fato paralelo foi que, nessa mesma semana, Clementina de Jesus encontrava-se internada para tratamento médico. Uma pessoa desprovida de qualquer sensibilidade, um verme, uma besta estúpida, telefonava às madrugadas para quem fosse próximo à Clementina, e informava que ela falecera. Todos saíam desesperados para o hospital, outros telefonavam apalermados, mas no final das contas não passava de trote de péssimo gosto, de algum(a) imbecil. Isso fustigava o subconsciente de todos, durante aqueles dias, que amavam à "mãe Quelé". Quem seria esse(a) FDP ? ...
Então, finalmente, saímos da casa de Marlene, eu, Hermínio, Walter, já fantasiados de roupas e apetrechos femininos, com destino à Banda de Ipanema. Já pulando no bloco, rolava uma garrafa de boca em boca, que alguém oferecia, na qual cada golada era um tiro no cérebro! Uma verdadeira bomba atômica! A multidão, sob um céu negro que anunciava mais uma tempestade de verão, alucinadamente cantava "...tem capoeira, na Bahia, na Mangueira, quem mandou você subir, capoeira, cuidado se não você pode cair, capoeira...". De repente, meio àquela turba desenfreada, uma explosão de trovão no céu desabou um temporal. Um estrondo colossal eclodiu das nuvens, com uma trovoada de tais proporções, que gerou um frenesi incontrolável, com todos gritando e pulando alucinadamente ao ritmo da banda. Havia na esquina oposta a da Igreja Na. Sa. da Paz, do outro lado da rua, um  botequim do tipo "bunda de fora", onde paramos em grupo, para beber mais algumas geladas. Eu fui direto para o mictório, tão apertado estava. Ao regressar não avistei quaisquer das pessoas conhecidas e fui para a calçada. Lá encontrei Hermínio completamente aparvalhado, socando a própria cabeça com seus punhos cerrados e olhos esbugalhados. Os demais do grupo choravam e se abraçavam comovidamente. Meu primeiro pensamento foi que o(a) tal FDP que anunciava a morte de Clementina, tivesse agido novamente. Ao me ver ali atônito, sem saber o que sucedia, o Wálter Firmo agarrou-me, sacudindo-me bruscamente pelo decote, e gritava enlouquecidamente - "Eduardo! Pixinguinha morreu!" - Eu não compreendia mais nada. Minha mente era um buraco! Eu era então um zumbi! Um nada! Eles todos estavam tomados de revolta, porque o padre não permitiu que eles entrassem na igreja para ver o corpo, pelo fato de estarem fantasiados. Pixinguinha partira! Exatamente como um santo, em paz, no interior da Paróquia de Na. Sa, da Paz! Não acreditávamos! Passáramos a manhã com ele, ouvindo suas histórias de seus troféus, em sua residência... Consternados, fomos alguns, se não me falha a memória, para a casa de um dos rapazes do MPB4 ou, não sei bem ao certo, se do compositor Maurício Tapajós, que era compadre de Hermínio. Era a casa de alguém conhecido, que morava ali próximo. De lá fomos para o Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, onde o corpo já estava sendo velado. Ao subirmos os poucos degraus da escada que levava ao interior do museu, Hermínio me apontou um homem caído, bêbado, desacordado, sobre os degraus e me disse - "Eduardo, esse é o Gouveia"... - Era o proprietário de uma whiskeria no centro do Rio, na qual Pixinguinha tinha mesa e cadeira cativas. Eu não me recordo desse dia, de qualquer acontecimento após a ida ao Museu da Imagem e do Som.


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