Foi em um sábado, anterior ao de carnaval, no ano de 1973, dia 17 de fevereiro. Eu contava vinte anos de idade e morava em Santa Tereza, com minha mãe e meus irmãos. Fui acordado de repente por minha mãe, me avisando que o Hermínio (Bello de Carvalho), estava à nossa porta com o fotógrafo Walter Firmo. O Hermínio fora incumbido pelo Albino Pinheiro - General da Banda de Ipanema - de ir à casa de Aracy de Almeida para convidá-la a ser madrinha da Banda de Ipanema daquele carnaval, naquela tarde desse mesmo sábado, quando a Banda faria um desfile pré carnavalesco. Levantei-me para receber aos dois, tomamos um rápido café e saímos na Variant de cor verde do Walter, por ele pilotada. Ao chegarmos à casa de Aracy, no bairro de Encantado, subúrbio do Rio, eu estava em estado de graça, completamente extasiado, não só pelo fato de conhecer pessoalmente essa mulher fantástica, como a casa em que ela residia, com um quintal todo arborizado e ajardinado, e com o interior decorado de móveis e objetos antigos fascinantes. Ela era muito engraçada e nos recebeu com alvoroço, irradiando simpatia e euforia. Feito então o convite, nos despedimos e saímos. Estava uma manhã digna de carioca, com um sol de dar gosto. Desde nossa saída de Santa Tereza, por quase todo o trajeto, sempre que era possível, parávamos em algum boteco, alguma birosca, e refrescávamos as almas com deliciosas cervejas e petiscos suspeitos, acinzentados de balcão. No percurso de volta, ao passarmos pelo Conjunto Habitacional dos Músicos, no bairro de Inhaúma, Hermínio me perguntou se eu gostaria de conhecer o Pixinguinha. Meu coração ficou aos pulos. Quem nos abriu a porta foi a esposa dele, Dona Albertina, que nos acompanhou ao banheiro, aonde o filho do casal cortava os cabelos do pai. Pixinguinha, visivelmente comovido com a visita inesperada de Hermínio, interrompeu de imediato o corte de seus cabelos e veio abraçar-nos a todos. Quando perguntou ao Hermínio o motivo de tal visita, soube então de nossa ida à residência de Aracy, para o tal convite da Banda. Surpreso, Pixinguinha respondeu que também iria nessa tarde à Ipanema, à Igreja Nª.Sª.da Paz, na praça de mesmo nome, para ser padrinho de batismo de um menino de nome Eduardo. Ao perceber a coincidência com o meu nome, ofereceu-me uma cópia autografada, de um Choro de autoria dele, com o qual presentearia os pais da criança. O Choro intitulava-se "Eduardinho No Choro". Infelizmente, a cópia com que fui presenteado foi roubada de minha residência, provavelmente por algum(a) FDP, durante alguma eventual reuniãozinha musical, daquelas que à época era normal se abrir a casa para qualquer um entrar. Pixinguinha mostrou-me todos os seus troféus e com paciência divina contou-me a história de cada um deles. Quando finalmente nos despedimos, Hermínio aproveitou a ocasião e combinou de nos encontrarmos então lá na praça de Ipanema. Solicitou-me que "desse um beijo nesse homem", o que prontamente atendi. Já na reta da pista de acesso à Avenida Brasil, olhávamos para traz e comentávamos ele ainda estar ao longe, de sua janela, acenando-nos em lentos e demorados adeuses, até desaparecer de nossas vistas. Quando nos aproximávamos da Mangueira, o Hermínio se virou para mim e indagou se eu gostaria de conhecer o Cartola. Caraca! Nem acreditei! Mal me recuperara das emoções de a pouco... E lá fomos nós bater à casa do Mestre. Quem nos recebeu foi Dona Zica, muito risonha e carinhosa. Ela nos disse que Cartola estava lá no "buraco quente", local do morro onde se reúnem ainda hoje em dia compositores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em biroscas e tendinhas. Na caminhada paramos na casa de Carlos Cachaça, e sua esposa, Menininha, também informou-nos que ele estava com o Cartola, lá no "buraco quente". Lá estavam, entre outros, os compositores Padeirinho, Xangô da Mangueira, e Cartola ao lado de Carlos Cachaça. Ocorreu que depois de tanta mistura de emoções, cervejadas, torresminhos, outras iguarias e sensações, me veio uma tremenda dor de barriga. Ao perguntar por um banheiro, Cartola convocou uma garotada que estava próxima e pediu-lhes que me "dessem segurança" até a casa do Carlos Cachaça. Ao saber de minha situação desesperadora, Menininha indicou-me apressadamente a porta redentora. Lá de dentro eu escutava ela comandando a comunidade, aos gritos: "Não! Esse papel é muito grosso! Pega outro mais fino pra não ralar o garoto! Traz mais água! Enche esse balde também!...". Eu estava constrangidíssimo, enquanto o morro parecia estar em festa, em total rebuliço e descontração, como se tal acontecimento fosse a coisa mais importante desse planeta. E ela continuava, agora falando do lado de fora para mim: "Pega aí na porta, do lado de fora, os baldes e o papel"... Ao sair da casa, ainda envergonhadíssimo, mas já aliviado, fui guiado pela minha fiel escolta de volta ao "buraco quente", para reencontrar com Hermínio, Walter Firmo, Cartola e Carlos Cachaça. De lá nós retornamos à casa de Cartola. Ele empunhou seu violão na varanda e passou a corrigir-me e a mostrar algumas harmonias dissonantes, após eu ter tocado algumas músicas minhas para ele a pedido de Hermínio. Saímos de lá por volta do horário de almoço e fomos para a residência de Albino Pinheiro, aonde se concentravam os membros da "Banda de Ipanema", que sairia para as ruas do bairro no final da tarde. Alguém dera a ideia de todos os homens saírem fantasiados com roupas femininas. Fomos eu, Hermínio e Walter até a minha casa em Santa Tereza, para pegarmos algumas roupas de minha irmã e de minha mãe. Daí o Hermínio deu a ideia de irmos à casa da cantora e atriz Marlene, para pegarmos roupas dela também. Ela me deu uma faixa onde se lia " A Mais Querida do Brasil". Eu estava pisando em nuvens! Para mim tudo era um mundo novo, repleto de fascínios. Então conheci nesse mesmo dia, levado pelo Hermínio, pessoas que eu nem podia imaginar encontrar um dia. Afinal o meu universo ainda oscilava em minha cabeça, entre Vila Isabel, bairro da Zona Norte, aonde eu nasci e cresci, e morei até a minha adolescência, com pipas, bolas de gude, figurinhas de bafo-bafo, carrinho de rolimã, estilingue, canivete suíço, caçadas a camaleões no Morro dos Macacos, brincadeiras de rua, pegar balão apagado e correr atrás de pipa voada... Meu coração ainda trepidava pelos estribos dos bonde e o ranger agudo dos trilhos, que me levavam, já rapazinho, desde a Vinte e Oito de Setembro até a Haddock Lobo, para o Instituto La-fayette, colégio em que cursei o "ginasial". Mas, esse mundo em que eu vivia agora era como um filme, no qual, de repente, eu contracenava e me deslumbrava com vários artistas e personalidades famosas. O desfecho desse sábado mágico eu narrarei em próximo post, para que este não fique demasiado longo. Até lá!